Educando meninas em preto e branco

por adm-fpe

A maternidade é uma construção e isso não é só um lugar comum. A cada idade, as mães vão aprendendo mais e mais com seus pequenos. E precisam aprender com o mundo para poder prepará-los para o desafio de serem cidadãos melhores.

Se isso é uma realidade para cada mãe que se vê nas próprias filhas, imagina o quão desafiador pode ser para uma mãe branca de meninas negras. Por isso conversamos com a atriz Samara Felippo sobre como criar meninas que vivem uma realidade que ela não conheceu.

Consciência que não somos todos iguais

Samara que hoje tem 42 anos, tem duas filhas, Alícia de 11 e Lara de 8, de seu relacionamento com o jogador de basquete Leandro Barbosa. Ela confessa que não tinha consciência do racismo no Brasil até ter suas filhas. “Vivemos numa bolha do ‘não sou racista’, repetindo piadas e expressões sem ter consciência. Furei a minha bolha com a ajuda das minhas filhas” admite, após ser confrontada pela mais velha querendo alisar o cabelo.

Para ela, as crianças se tornam racistas pela forma como são criadas e ela foi fruto de uma criação que ignorava essa questão, escondida sob o manto de sociedade miscigenada e democrática que o Brasil sempre vestiu. “A gente cresce vendo novelas onde o negro está em posição inferiorizada, é o escravo, o empregado, o bandido…vamos achando que isso é normal” comenta. Mas como ela mesma diz “antes tarde do que tarde demais” e encara como uma vergonha nunca ter olhado para a questão dos negros antes.

Quando a pequena trouxe a questão do cabelo, jogou uma luz sobre o fato dela não ter referências em quem se espelhar – já que as professoras, amigas, a própria mãe, todas são brancas e de cabelos lisos. “No colégio das minhas filhas, como na maioria das escolas da classe média, a negra é a servente, a merendeira”.

Seu cabelo, sua força

Mas Samara não se deixou abater e se dispôs a brigar pela auto-estima da filha, conversando sobre como o cabelo dela era lindo e como o cabelo era a representação do povo negro: “eu disse que o cabelo era a força dela. Eu não julgo mães pretas que deixam as filhas alisarem os cabelos, porque elas fazem isso para protegê-las do que elas mesmas passaram na infância”.

A atriz até diz que se a Alícia fosse mais velha, e totalmente consciente do que é uma química permanente no cabelo, ela poderia deixar, mas não sem antes ter certeza de que a filha entende bem a atitude tomada e que, enquanto ela não tiver 18 anos ela não vai deixar, mesmo, e sim, buscar estudar junto com ela todas as referências de pessoas negras por aí. E ajudá-la também a aprender a cuidar do seu cabelo.

Agora que a mais velha está prestes a entrar na adolescência, Samara diz que sempre temeu muito essa fase, como mãe. “Me coloco sempre como o porto seguro delas, para que elas falem sempre o que precisam, ser medo ou vergonha. Quero que saibam a diferença entre medo e respeito.”

Esse medo da adolescência é igual para todas as mães, em uma época ainda mais complicada onde as meninas têm acesso à informação – boa e ruim – na palma da mão. E também onde os problemas como bullying, assédio e discriminação parecem ser colocados sob um amplificador. “O que eu posso fazer é sedimentar essa ponte entre eu e minhas filhas” acalma Samara.

Por que não boi colorido?

Quando o Ela pede para Samara dar dicas para as mães de meninas negras, como forma de elevar a autoestima delas e até de se defender de comentários racistas, ela declara que tem ouvido mais as amigas e mães pretas. “Acho que é nunca parar de enaltecer a beleza delas e a coragem delas. O quanto é importante a identidade da mulher negra” resume. E ter cuidado com aquilo que repetimos sem pensar: “ouvindo uma música a gente já tem que pensar por que ‘boi, boi da cara preta’? Por que não colorido?”

Outro ponto muito importante e que poucas pessoas falam é sobre o colorismo. “É importante falar sobre as diferentes cores de pele. As pessoas mais escuras sofrem mais discriminação. Mas não quer dizer que uma menina preta de pele clara deixe de ter sua identidade”.

Outra dica importante que a atriz repete é a de mostrar referências nos livros, na TV, na política, na sociedade. As meninas têm que encontrar modelos. “Tudo isso com amor e muito carinho nessa jornada”.

Lugar de fala de quem…de todos

Para Samara é muito importante falar sobre o racismo e deixar o tema tomar a sociedade. Dentro de seu próprio lugar de fala, claro, mas brancos também podem falar e devem reconhecer e ecoar essa luta. “Brancos têm que ter noção da ferida histórica imposta aos negros” diz e ainda cita a filósofa Djamila Ribeiro ao dizer que “lugar de fala não é exclusividade de fala”.

Como as crianças devem estar fortalecidas para reconhecer o racismo e se defender dele a atriz pontua o que é importante na criação das meninas: autoestima, amor próprio e conhecimento da ancestralidade. Mas a atriz também fala sobre ser favorável à política de cotas e de políticas públicas positivas a favor da inclusão para “botar a oportunidade na mão dessas crianças periféricas”.

Ouvir essa voz

Sua experiência em dividir esses temas delicados nas redes sociais a ajudou a fortalecer a autoestima da Alícia e ela nota que está sendo até mais fácil para a Lara, que já vem absorvendo isso tudo como uma esponja. “Eu digo a elas que elas são privilegiadas em relação às meninas nas comunidades que sofrem mais racismo, por serem de classe média, filhas de pais famosos”.

Samara tem usado suas redes sociais para levantar essa bandeira sobre ter mais mulheres pretas na política e mais inclusão por parte do Governo. “Minha grande esperança é que as crianças se fortaleçam a partir de uma sociedade que reconhece a voz do povo negro e ouve essa voz”.

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