Mais do que prescrever um método para evitar a gravidez não planejada, a prevenção passa por informação, diálogo e acesso – dentro de casa, na escola e nos serviços de saúde
Por Letícia Martins, jornalista com foco em saúde
Quando o assunto é gravidez na adolescência, muitas conversas ainda param no mesmo ponto: qual método contraceptivo é melhor? Mas, para a ginecologia, a prevenção começa bem antes da prescrição. Ela passa por educação sexual adequada à idade, diálogo familiar aberto, participação ativa da escola e acesso facilitado aos serviços de saúde.
A ginecologista e obstetra Dra. Denise Leite Maia Monteiro, professora titular de Obstetrícia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e integrante da Comissão Nacional Especializada em Ginecologia e Obstetrícia na Infância e Adolescência da Febrasgo, explica que reduzir a gravidez precoce exige uma abordagem mais ampla e integrada.
“A ginecologia enxerga a prevenção da gravidez na adolescência de forma muito mais abrangente do que somente o uso de métodos contraceptivos”, afirma. Para ela, é fundamental que os métodos sejam explicados de forma clara e que estejam disponíveis gratuitamente, garantindo que a adolescente consiga, de fato, aderir à prevenção.
O papel das mães mudou
Na prática clínica, a Dra. Denise observa uma transformação importante nas últimas décadas: a presença ativa das mães no cuidado com a saúde sexual das filhas. “Hoje, eu observo que é a mãe que, ao saber que a filha está namorando ou ‘ficando’ com alguém, a leva ao médico para que a oriente e prescreva o contraceptivo”, relata.
Segundo a especialista, muitas dessas mulheres foram mães na adolescência e fazem questão de evitar que a história se repita. Esse movimento de diálogo e acolhimento dentro de casa tem sido um dos fatores mais relevantes para a redução das taxas observadas no Brasil e em outros países. “Adolescentes que conseguem conversar com seus responsáveis tendem a iniciar a vida sexual mais tardiamente e a se proteger melhor”, afirmou a Dra. Denise.
Além da família, a escola também tem papel central. Informação segura, linguagem adequada e compreensão das necessidades reais dos adolescentes ajudam a criar um ambiente de proteção, autonomia e responsabilidade.
Quais métodos contraceptivos são indicados para adolescentes?
Hoje, existe uma ampla variedade de métodos contraceptivos seguros e eficazes para adolescentes. Entre eles estão pílulas anticoncepcionais, preservativo masculino e feminino, anel vaginal, adesivo, injeções mensais e trimestrais, diafragma, tabelinha, contracepção de emergência e os chamados contraceptivos reversíveis de longa duração, conhecidos como LARCs.
Atualmente, tanto órgãos brasileiros quanto organizações internacionais recomendam os LARCs como primeira opção para adolescentes. Esse grupo inclui o DIU de cobre, o DIU hormonal e o implante subdérmico.
“Esses métodos são altamente eficazes porque não dependem da adolescente para lembrar do uso diário ou frequente”, explica a Dra. Denise. Além disso, têm longa duração, podendo proteger contra a gravidez por períodos que variam de aproximadamente três a dez anos, são reversíveis e seguros, inclusive para adolescentes que ainda não tiveram filhos, desde que com acompanhamento profissional.
Vários estados e municípios brasileiros já disponibilizam os LARCs, mas a especialista chama atenção para a importância da ampliação do acesso aos LARCs a nível nacional para baixar mais rapidamente as taxas de gravidez na adolescência. Em 2023, a taxa de partos na adolescência no Brasil foi de 42 a cada 1.000 adolescentes, enquanto em países desenvolvidos esse número varia entre 5 e 20 por 1.000. “A escolha do método deve ser sempre individualizada, garantindo informação adequada, acesso e seguimento”, reforça.
Mitos e verdades sobre gravidez e sexualidade na adolescência
Na Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, a Dra. Denise Monteiro esclarece cinco mitos e verdades sobre o assunto. Confira:
❌ Mito: Na primeira relação sexual não é possível engravidar
✔️ Verdade: A gravidez pode acontecer em qualquer relação sexual sem proteção, inclusive na primeira. Se houver ovulação e contato com espermatozoides, há risco de gravidez.
❌ Mito: Se a menina estiver menstruada, não há risco de gravidez
✔️ Verdade: Embora o risco de gravidez durante a menstruação seja baixo, ele existe. Isso acontece porque o ciclo menstrual nem sempre é regular, a ovulação pode ocorrer fora do esperado e os espermatozoides podem sobreviver por dias no organismo da mulher. Estudos com mulheres vítimas de violência sexual mostram que a gravidez pode ocorrer em diferentes fases do ciclo menstrual, inclusive durante períodos de sangramento.
❌ Mito: Métodos contraceptivos hormonais fazem mal ou causam infertilidade
✔️ Verdade: Esses métodos são amplamente estudados, seguros e não causam infertilidade. Após a interrupção, a fertilidade retorna normalmente. Como qualquer medicamento, os métodos contraceptivos devem ser indicados e acompanhados por um profissional de saúde.
❌ Mito: Usar dois métodos ao mesmo tempo é exagero
✔️ Verdade: A chamada dupla proteção é sempre recomendada. Associar camisinha a um método contraceptivo protege tanto contra a gravidez quanto contra as infecções sexualmente transmissíveis.
❌ Mito: Conversar com o ginecologista significa que a adolescente já é sexualmente ativa
✔️ Verdade: A consulta ginecológica faz parte do cuidado com a saúde da adolescente, independentemente do início da vida sexual. É um espaço de orientação, prevenção e promoção do autocuidado.
Como destaca a especialista, “desmistificar crenças é uma das estratégias mais eficazes para a prevenção da gravidez na adolescência e para a promoção da saúde”.
Para mães, esse conhecimento é uma ferramenta poderosa: ajuda a orientar conversas, acolher dúvidas e construir, junto com as filhas, caminhos mais seguros para atravessar a adolescência.

