Taxa de gravidez na adolescência cai no Brasil, mas ainda revela desigualdades profundas

por Feito para Ela

Por Letícia Martins, jornalista com foco em saúde

Avanços nas últimas décadas mostram que políticas públicas funcionam, mas especialistas alertam: informação e acesso ainda não chegam a todas

Durante muito tempo, a gravidez na adolescência foi tratada como um problema sem solução no Brasil. No entanto, os dados mais recentes mostram um cenário mais complexo, e, em alguns aspectos, mais esperançoso. Ao longo do século XXI, o país registrou uma queda expressiva nos índices, resultado direto de políticas públicas, ampliação do acesso à informação e fortalecimento da atenção à saúde. Ainda assim, o tema segue como um desafio importante, agora  mais concentrado em grupos socialmente mais vulneráveis.

Segundo a ginecologista e obstetra Dra. Denise Leite Maia Monteiro, professora titular de Obstetrícia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e integrante da Comissão Nacional Especializada em Ginecologia e Obstetrícia na Infância e Adolescência da Febrasgo, a redução foi consistente e significativa. Entre os anos 2000 e 2024, a queda foi de 63,7% nos nascimentos de filhos de mães adolescentes.

“Em 2000, um em cada quatro bebês nascidos no Brasil era filho de mãe adolescente. Em 2024, esse número caiu para um em cada nove”, explica. Em números absolutos, os nascimentos passaram de 750.537, no início dos anos 2000, para 272.520 em 2024.

Esse avanço, segundo a especialista, mostra que o país caminhou na direção certa. “Mas o desafio atual é a reincidência de gestação na adolescência, o casamento precoce e a gravidez ocasionada por violência sexual”, declara.

Quando a informação não chega a todas

Apesar de mais acesso à informação, a gravidez na adolescência não desapareceu. Ela mudou de perfil. Hoje, está mais concentrada entre meninas que vivem em contextos de maior vulnerabilidade social, fora da escola, em situação de pobreza e, especialmente entre as mais jovens, muitas vezes associada à violência sexual.

“A gravidez na adolescência ainda é um desafio de saúde pública, mas hoje por razões diferentes do passado. O grande problema atualmente é a desigualdade no acesso aos serviços de saúde, aos métodos contraceptivos e às oportunidades educacionais”, afirma a Dra. Denise.

Ou seja, não se trata apenas de falta de informação, mas de barreiras reais que impedem muitas adolescentes de transformar conhecimento em proteção: dificuldade de acesso aos serviços, ausência de acompanhamento contínuo, falhas na permanência escolar e fragilidade das redes de apoio.

Esse cenário reforça a importância de estratégias que vão além de campanhas pontuais. Para a especialista, garantir métodos contraceptivos eficazes de forma gratuita, facilitar o acesso aos serviços de saúde e investir em ações intersetoriais são pilares fundamentais para enfrentar o problema de forma sustentável.

Um olhar que envolve famílias, escolas e serviços de saúde

Criada em 2019, a Semana Nacional de Prevenção à Gravidez na Adolescência, celebrada anualmente no início de fevereiro, surge como um marco importante nesse processo. Mais do que repetir mensagens genéricas, a iniciativa tem o objetivo de qualificar o debate, divulgar dados atualizados e estimular ações baseadas em evidências científicas.

“A Semana Nacional de Prevenção à Gravidez na Adolescência é uma oportunidade para ampliar o diálogo com adolescentes, famílias, escolas e profissionais de saúde”, destaca a médica. O cuidado com a saúde do adolescente, segundo ela, deve ser integral, envolvendo educação sexual adequada à idade, orientação sobre métodos contraceptivos, atenção à saúde mental e fortalecimento da autonomia para a construção de projetos de vida.

Para mães que acompanham de perto o crescimento dos filhos, especialmente na transição para a adolescência, o tema também é um convite à escuta, ao diálogo e à presença. Afinal, prevenir a gravidez precoce não é apenas evitar um evento, mas abrir caminhos para escolhas mais conscientes e futuras possibilidades.

Como resume a Dra. Denise: “Prevenir a gravidez na adolescência é investir em saúde, educação e futuro.”

Quando a maternidade chega cedo demais

Se os números ajudam a dimensionar o problema, o impacto real da gravidez na adolescência aparece na vida concreta dessas meninas. A adolescência, lembra a Dra. Denise, é um período naturalmente marcado por transformações intensas tanto no corpo e nas emoções, quanto nas relações sociais. Inserir uma gestação nesse momento pode gerar consequências profundas e duradouras.

Do ponto de vista físico, a ginecologista obstetra explica que a adolescente grávida apresenta maior risco de complicações obstétricas, especialmente nas faixas etárias mais jovens. Entre os principais problemas estão a anemia, as síndromes hipertensivas da gestação, o parto prematuro e o baixo peso ao nascer.

Mas os impactos vão muito além do corpo. A gravidez precoce costuma alterar de forma brusca a rotina da adolescente, afastando-a da escola, dos amigos e das atividades próprias da idade. Esse rompimento com o convívio social pode levar ao isolamento e à perda de vínculos importantes justamente em uma fase de construção da identidade.

“Muitas vezes, quando essa jovem não conta com apoio familiar adequado ou com a presença do parceiro, a maternidade acaba sendo vivida de forma solitária, o que aumenta a sobrecarga emocional”, explica a Dra. Denise.

Segundo ela, esse conjunto de fatores – mudanças repentinas na rotina, interrupção dos estudos, distanciamento social e fragilidade da rede de apoio – contribui para o surgimento de ansiedade e depressão em diferentes graus entre adolescentes grávidas.

Por isso, a médica reforça que o olhar sobre a gravidez na adolescência precisa ser mais amplo e sensível, considerando não apenas os riscos obstétricos, mas também os efeitos emocionais e sociais envolvidos. “A gravidez na adolescência precisa ser vista não apenas como um evento biológico, mas como uma situação que exige cuidado integral, com atenção à saúde mental, ao suporte social e à continuidade dos estudos.”

Para mães que acompanham de perto o crescimento dos filhos, esse alerta é fundamental. Mais do que números ou estatísticas, o tema envolve escuta, acolhimento e a construção de ambientes seguros dentro e fora de casa, para que adolescentes possam atravessar essa fase com mais proteção, informação e apoio.


Fonte: SINASC/ DATASUS, 2025

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