Setembro Amarelo uma campanha de atenção permanente contra o suicídio

por Feito para Ela
Setembro Amarelo é a campanha brasileira de prevenção ao suicídio que busca o engajamento de todos os setores da sociedade

O suicídio é definido como um ato deliberado, cometido por um indivíduo contra a própria vida. Porém, muito maior do que a frieza da definição, são os dados estatísticos registrados no Brasil. Cerca de 13 mil suicídios ocorrem por ano, sendo que 75% foram consumados por homens. Entretanto, são as mulheres que mais tentam suicidar-se, e a faixa etária predominante está entre as adolescentes. O suicídio é a terceira maior causa de óbitos entre jovens no Brasil.

E o que há por trás deste cenário? Para o doutor Joel Rennó, professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e coordenador do programa de saúde mental da mulher no Hospital das Clínicas de São Paulo (HCFMUSP), são vários os aspectos a serem analisados. “O suicídio está intimamente ligado às doenças mentais. Não é fraqueza, é doença neurobiológica. É comprovado que 96,8% dos pacientes que tentam o suicídio têm um distúrbio mental não diagnosticado e, consequentemente, não tratado. Podemos falar em depressão, transtorno bipolar, transtornos alimentares, esquizofrenia, etc. O importante, todavia, é saber que o ato pode ser evitado. São vários os sinais que uma pessoa que planeja o suicídio pode dar: mudanças bruscas de comportamento, tristeza, dificuldade de concentração, perda de memória, manifestação de pensamentos ruins, angústia, crises de choro, desânimo, isolamento, desempenho escolar ruim, ou estar vivenciando crises familiares frequentes. Existem outros atos, como a automutilação, que acontecem com relativa frequência entre meninas, que torna o quadro ainda mais evidente. Idosos também sofrem com isso, por possíveis perdas familiares, solidão, enfermidades”.


Para Rennó, o caminho mais indicado para evitar o suicídio é o tratamento precoce. Mas, para tanto, é preciso o reconhecimento de que uma pessoa tenha essa tendência, uma tarefa que não é fácil mesmo para um profissional da saúde. “É necessária uma abordagem delicada, porque o tema por vezes é constrangedor para o paciente. Além de todos os sinais que já mencionei, existem outros campos que podem ser explorados. Por exemplo, se a pessoa faz uso de drogas ilícitas ou do uso excessivo do álcool, isso pode ser um indício. Outra área que pode ser explorada é o histórico familiar, se já ocorreram suicídios ou tentativas de suicídio na família. Existem estudos que mostram que componentes genéticos podem agir, além dos fatores ambientais, criando uma pré-disposição maior para o ato. Independente disso, é necessária uma atenção redobrada com as mulheres, porque é comprovado que elas têm duas vezes mais probabilidade de terem depressão do que os homens, por serem mais vulneráveis, especialmente na adolescência. Apesar de estarmos todos expostos nas redes sociais, são as meninas as mais suscetíveis ao bullying, a humilhação. São as mulheres também as mais afetadas pela questão do abuso sexual, na infância ou adolescência, ou ainda de serem vítimas de maus tratos. Se for identificada uma tendência suicida, a pessoa deve ser encaminhada para um psicólogo ou psiquiatra. O tratamento consiste em sessões de terapia e medicamentos. Repito, é importante saber que o suicídio pode sim ser evitado e, quanto mais cedo o tratamento começar, maior será sua eficácia”.

Tabus

Um dos principais obstáculos para evitar essa tragédia é a estigmatização em torno do tema. A chamada psicofobia, discriminação contra pessoas que possuem transtornos mentais, é inclusive considerada crime previsto na Lei 10.216/2001.
“Equivocadamente pessoas com doenças mentais são consideradas loucas, assim como quem frequenta a sala de um psicólogo, ou psiquiatra. Isso é um absurdo sem tamanho, pois quem tem uma doença mental se equipara a quem tem uma doença cardíaca ou respiratória, por exemplo. O paciente precisa ser diagnosticado e tratado, simples assim. A sociedade enxerga de forma diferente quem tem uma doença mental, e se afasta dela, piorando a situação. Até mesmo pais tendem a minimizar ou se afastar do filho, o que consiste num grande erro. O adolescente acaba se sentindo excluído, rejeitado, negligenciado, piorando seu quadro clínico. Então é preciso promover os chamados fatores protetivos: fortalecer os laços com a família e os amigos, estimulando a expressão de seus sentimentos. Dar carinho e atenção, elevando sua autoestima. Muitas vezes a própria religiosidade pode ser um caminho, pois a fé ajuda a salvar vidas”, fala Rennó.
No caso de um familiar ou amigo presenciar uma tentativa de suicídio, o caminho é parecido, ou seja, fortalecer medidas protetoras. “É muito importante o suporte afetivo, socioemocional, o diálogo. Sobretudo estimular a procura por ajuda médica. São muitos tabus envolvendo o tema. Existem até pessoas que acham que quem tenta o suicídio e não o concretiza, quer apenas chamar a atenção. Muitas vezes o suicida manifesta seus sentimentos e não é levado a sério. Alguns pais acham que é capricho de adolescente, e não conduzem a situação com a seriedade com que ela merece”, afirma Rennó.

Setembro Amarelo

Desde 2014, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), organiza em nível nacional o Setembro Amarelo. O dia 10 é oficialmente o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, mas a campanha acontece durante o ano inteiro. “Ela ganha ainda mais importância por conta de outro dado estatístico. O Brasil está na contramão do mundo, os casos de suicídio têm caído pelo planeta e crescendo por aqui. São campanhas educativas, cartilhas distribuídas, um trabalho de formiga, ano a ano, buscando informar e conscientizar a população brasileira sobre o tema. Durante a pandemia, os esforços das entidades foram redobrados, pelo fato da mudança brusca de hábitos e o isolamento forçado. Estamos indo relativamente bem, mas acredito que deva haver um maior envolvimento do Poder Público. Nosso Sistema Único de Saúde (SUS) é muito precário quando falamos de doenças mentais. Muitas unidades nem ao menos têm um psicólogo ou psiquiatra, o que prejudica sobremaneira o combate a essa tragédia. Sem falar que crises econômicas também são fatores desencadeadores do suicídio, por trazerem o desemprego, a chamada impotência econômica. O desespero, o não cumprimento do papel de provedor(a) pode sim levar uma pessoa a pôr fim na própria vida. É hora de enxergar o que o Brasil realmente necessita”, diz Rennó, que também coordena a Comissão de Saúde Mental da Mulher da ABP.
Por fim, ele deixa sua mensagem: “É importante a capacitação e o envolvimento da classe médica como um todo, para que possamos combater o suicídio. Muitas vezes o médico é o profissional escolhido para que alguém exponha seus sentimentos. Então, óbvio, ele precisa saber como agir. Mas isso não é responsabilidade apenas dos profissionais da saúde. O Poder Público precisa fazer sua parte, como já mencionado, e, principalmente, a sociedade em geral. Amigos, parentes, todos têm que se envolver na questão. O ato suicida é praticado por alguém que vê a realidade distorcida e que precisa de ajuda. É sabido que a grande maioria dos suicidas não concretiza sua intenção na primeira tentativa, algumas pessoas tentam mais de dez vezes até consumar a tragédia. E que o risco de nova tentativa é seis vezes maior, caso já tenha sido tentado uma vez. Cerca de 50% das pessoas que se suicidaram já haviam tentado anteriormente. Mas o suicídio pode ser evitado. Fica evidente a importância da sociedade nesse contexto, e o apoio social é fundamental para que esse número significativo de mortes caia. É preciso envolvimento, solidariedade, e colocar-se no lugar daquele indivíduo fragilizado. Esse deve ser o objetivo de todos”, finaliza o doutor Joel Rennó.

Serviço

Veja Também

Deixe um Comentário

Inscreva-se para receber os conteúdos mais importantes sobre saúde da mulher, bem-estar, empreendedorismo, carreira e muito mais!