Por Letícia Martins, jornalista com foco em saúde
Nova diretriz antecipa o rastreamento do câncer de mama e reforça a importância do diagnóstico precoce
Uma mudança histórica acaba de acontecer na saúde da mulher no Brasil. O Ministério da Saúde atualizou, em setembro de 2025, a diretriz de rastreamento do câncer de mama e passou a recomendar a mamografia de rotina a partir dos 40 anos, mesmo para mulheres sem sintomas. A decisão representa um avanço importante na prevenção da doença que mais mata mulheres por câncer no país.
Essa conquista é resultado de anos de mobilização de sociedades médicas como a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e o Colégio Brasileiro de Radiologia, que sempre defenderam o início mais precoce do rastreamento com base em evidências científicas.
“Quando deixa de realizar a mamografia entre os 40 e 50 anos, o Brasil perde a chance de diagnosticar precocemente cerca de um terço dos casos de câncer de mama”, alerta o ginecologista e mastologista Dr. Eduardo Carvalho Pessoa, presidente da Comissão Nacional Especializada em Imaginologia Mamária da Febrasgo. “Estamos falando de vidas que poderiam ser salvas”, ressalta.
Na prática, a mudança é clara: antes, o rastreamento recomendado pelo Ministério da Saúde era dos 50 aos 69 anos, a cada dois anos. Agora, a nova diretriz estabelece que a mamografia deve ser feita anualmente, dos 40 aos 74 anos, ampliando de forma significativa a proteção às mulheres.
Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer, excluindo-se o câncer de pele, o câncer de mama é o tipo mais incidente entre as mulheres brasileiras, com mais de 73 mil novos casos estimados em um único ano. No mundo, também é o câncer mais comum entre o público feminino, segundo a Organização Mundial da Saúde.
A ginecologista e mastologista Dra. Hilka Flávia Barra do Espírito Santo Alves Pereira, vice-presidente da Febrasgo na região Norte, destaca que o diagnóstico precoce muda completamente o percurso da doença. “Quanto mais cedo o câncer é identificado, menores são as cirurgias, menor a necessidade de quimioterapia e radioterapia e maior a chance de recuperação. Isso impacta diretamente a qualidade de vida da mulher”, explica.
Além disso, a médica destaca que a prevenção também beneficia o sistema de saúde. “Essa diretriz é boa para a paciente e para o SUS. Diagnósticos precoces significam menos internações, menos custos e mais efetividade no cuidado”, resume.
A atualização das diretrizes reforça uma mensagem essencial: diagnóstico precoce do câncer de mama representa mais tempo, mais escolhas e mais vida para as mulheres.
Do rastreamento oportunístico ao cuidado organizado
A atualização das diretrizes representa um avanço fundamental, mas ainda é apenas o começo de um desafio maior: fazer com que essa recomendação se transforme em acesso real para todas as mulheres. Para isso, será necessário ampliar a oferta de exames, capacitar profissionais e fortalecer a estrutura diagnóstica em todo o país.
Na avaliação do Dr. Eduardo, o próximo passo é mudar a lógica do cuidado. Hoje, o Brasil ainda funciona majoritariamente com um rastreamento oportunístico, em que a mulher realiza a mamografia apenas quando procura espontaneamente o serviço de saúde. O ideal, segundo ele, é avançar para um modelo organizado, contínuo e integrado.
“Precisamos vencer dois grandes desafios”, explica o médico. “O primeiro é o acesso. Isso depende de uma rede estruturada, com mamógrafos de qualidade, profissionais capacitados para interpretar os exames e fluxos ágeis de encaminhamento. Se um resultado vier alterado, a paciente deve ser imediatamente encaminhada para biópsia e, caso o diagnóstico seja confirmado, precisa ter acesso rápido ao tratamento. Esse é o conceito de rastreamento organizado: uma jornada completa.”
O segundo pilar, igualmente essencial, é a educação das mulheres. De acordo com o especialista, o medo ainda é um dos principais fatores que afastam muitas delas da mamografia. “Muitas mulheres têm receio de descobrir um câncer e, por isso, evitam o exame. Precisamos mudar essa narrativa e mostrar que o diagnóstico precoce salva vidas.”
Ele reforça que, quando o câncer de mama é identificado em fases iniciais, as chances de cura são muito altas e os tratamentos tendem a ser menos agressivos. “Na maioria das vezes, cirurgias menores são suficientes e a quimioterapia nem sempre é necessária. Fazer a mamografia no tempo certo não é motivo de medo, é uma forma de cuidado consigo mesma”, conclui.


