“Não existem super-mulheres”: os impactos da pandemia na saúde mental das brasileiras

por Feito para Ela
As mulheres são as mais afetadas pelas consequências do isolamento social; especialista dá dicas de como reconhecer os sintomas e quando buscar ajuda profissional

Uma mulher serve o almoço aos seus dois filhos pequenos, ao mesmo tempo em que responde às cobranças do chefe no Whatsapp. Ela ainda está de olho no ciclo da máquina de lavar e na previsão de chuva que pode atrapalhar os planos de secar a roupa no mesmo dia. E não é só isso. Logo mais ela tem uma reunião super importante com um novo cliente, e ainda não sabe direito como vai evitar o choro manhoso das crianças que brigam com o sono logo após o almoço.

Se você se reconheceu nessa narrativa, saiba que não é a única. A cena com a qual abrimos esta reportagem se tornou corriqueira ao longo dos quase dois anos da pandemia da Covid-19 e demonstra o tamanho da sobrecarga feminina – que, infelizmente, não vem de hoje. As mulheres dedicam quase o dobro do tempo na realização de atividades domésticas e cuidados com os filhos e outras pessoas do que os homens, segundo um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizado em 2019.

Essa realidade se tornou ainda mais evidente na pandemia, impactando diretamente a saúde mental dessas mulheres. E há números para provar: o sexo feminino foi o mais afetado emocionalmente durante o isolamento, respondendo por 40,5% dos sintomas de depressão, 34,9% de ansiedade e 37,3% de estresse, de acordo com estudo feito por pesquisadores do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP entre maio e junho de 2020. O levantamento ouviu homens e mulheres de 26 Estados brasileiros e do Distrito Federal.

Mas agora, em um momento em que a vacinação avança e a vida começa a voltar a um suposto “normal”, algumas dessas mulheres sobrecarregadas apresentam uma característica comum: a pouca (ou mesmo nenhuma) vontade de socializar com outras pessoas. Ok, elas estão cansadas, mas quando é que essa falta de vontade indica, de fato, um motivo de preocupação e a necessidade de buscar ajuda profissional?

Para o médico psiquiatra Joel Rennó Junior, professor colaborador do departamento de psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher do Instituto & Departamento de Psiquiatria da USP, muitas vezes essa barreira é mais tênue do que imaginamos. “Elas vão mudando suas características comportamentais e, na correria do dia a dia, não percebem essas alterações. E nem mesmo as pessoas da família e os amigos notam”, alerta.

O especialista indica algumas características que podem indicar um transtorno mental consolidado, que requer ajuda de psicólogos ou mesmo psiquiatras. São elas:

  • Tempo de duração dos sintomas:
    Quando tristeza, ansiedade, angústia e outros sintomas do tipo causam prejuízo ou incapacitação na maior parte dos dias por um período maior ou igual a duas semanas, já não se trata mais de uma reação de ajustamento, mas sim de um quadro que está evoluindo para um transtorno de ansiedade ou depressão.
  • Características comportamentais:
    Ela era extrovertida e passou a ser mais introspectiva? Era calma e agora está explosiva? Via a vida com otimismo, mas agora só consegue enxergar o lado negativo? Essas mudanças de comportamento são sinais de alerta, conforme Rennó.
  • Hábitos de vida:
    A pessoa deixou de fazer atividades físicas? Passou a ingerir mais álcool ou mesmo outras drogas? Está descontando a frustração nos alimentos? Sente-se ansiosa toda vez que precisa sair de casa ou mesmo com a possibilidade de retomar o trabalho presencial? Esses são aspectos para se observar também.
  • Perdas:
    Muitas pessoas perderam entes queridos durante a pandemia da Covid-19, ou estão enfrentando sequelas da doença nelas mesmas, em familiares e amigos. É preciso ficar atento e observar se a tristeza faz parte de um período de luto natural ou se é motivo de alerta para transtornos mentais.

E as crianças?

Além de lidarem com a sobrecarga de atividades de trabalho e do lar, muitas mulheres também precisaram olhar com mais atenção para as crianças em casa. Afinal, o isolamento e o medo de uma doença desconhecida também pode causar sequelas no desenvolvimento cognitivo dos pequenos.

Rennó destaca que esse cuidado é ainda mais crucial no caso de crianças que já apresentavam algum transtorno antes da pandemia, como autismo, déficit de atenção ou hiperatividade. “Muitas dessas crianças deixaram de fazer atividades importantes para o seu desenvolvimento, como esportes, terapia ocupacional, consultas presenciais com fonoaudiólogo e psicólogos. E isso impactou muito na evolução desses transtornos.”

O psiquiatra alerta que, nesses casos, é preciso dividir a sobrecarga com o parceiro, parceira ou com o círculo de apoio mais próximo. “Não existem super-mulheres. E a responsabilidade com a criação dos filhos deve ser sempre dividida”, garante.

E os relacionamentos?

A mesma atenção vale para as relações, que podem tanto ter se fortalecido quanto se desgastado durante o período de isolamento social imposto pela pandemia. Aliás, Rennó alerta que muitas mulheres, além de não terem qualquer apoio dos parceiros nas tarefas domésticas no período de home office, ainda se viram diante de situações de violência. Pois é. Houve aumento de casos registrados em ao menos 483 cidades, número que equivale a 20% dos 2.383 municípios ouvidos em uma pesquisa da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) sobre a pandemia.

Para os relacionamentos que não chegaram a esse extremo, mas começaram a enfrentar dificuldades depois da pandemia, Rennó recomenda o diálogo em primeiro lugar. “E, caso seja necessário, é importante também buscar ajuda profissional, como uma terapia, que pode ser feita individualmente ou em conjunto com o parceiro ou parceira”, indica.

E o trabalho?

A mesma recomendação vale aqui para quem enfrenta dificuldades no trabalho: dialogar é a melhor saída. “Muitas mulheres se sentiram sobrecarregadas com o home office, e muitas empresas compreenderam pouco ou quase nada os problemas que surgiram na rotina delas em casa. Para ambos os casos, é importante conversar, expor a dificuldade, que pode, inclusive, ser algo passageiro, e buscar alternativas para solucionar o problema de forma conjunta.”

Se a questão é a ansiedade e a falta de vontade de retornar para o trabalho presencial, o diálogo aqui também é importante. Conversar com as lideranças, entender se é possível adotar o home office em alguns dias da semana ou negociar horários mais flexíveis são algumas das possibilidades para conservar os benefícios adquiridos no modelo de trabalho remoto durante a pandemia, tais como não ter que enfrentar trânsito ou pegar o transporte público lotado.

Quando buscar ajuda profissional?

Se mesmo com essas dicas o desânimo e a falta de vontade persistirem, o especialista indica que é hora de buscar ajuda profissional. A recomendação de Rennó é procurar inicialmente um psicólogo. E, nos casos em que for necessária intervenção medicamentosa, esse profissional pode recomendar o encaminhamento a um psiquiatra.

O especialista ainda reforça: “A vacina renovou as esperanças de muita gente, mas notícias como a de novas variantes da Covid-19 mostram que não temos como controlar todos os aspectos das nossas vidas. Esse é o caos natural da existência humana, e precisamos aprender a conviver com ele com resiliência, sem deixar de fazer planos e ter esperanças”, garante.

Veja Também

Deixe um Comentário

Inscreva-se para receber os conteúdos mais importantes sobre saúde da mulher, bem-estar, empreendedorismo, carreira e muito mais!