Por um parto digno e respeitoso

por Feito para Ela
Saiba como identificar e o que fazer para denunciar situações de violência e discriminação durante esse momento tão importante da vida da mulher

O parto é um dos momentos mais especiais da vida de uma mulher que deseja ter filhos. Portanto, é direito de todas as mães que esse momento seja seguro e respeitoso, com o objetivo de reduzir as taxas de complicações e mortalidade materna e perinatal, mas, também, de fornecer um ambiente acolhedor no período do nascimento.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), inclusive, preconiza que “todas as mulheres têm o direito ao mais alto padrão de saúde atingível, incluindo o direito à assistência digna e respeitosa durante toda a gravidez e o parto, assim como o direito de estar livre de violência e discriminação.”

Como, então, identificar essas possíveis violações de direitos humanos no momento do parto, tais como abusos, maus-tratos, negligência e desrespeito de forma geral?

Primeiro, é fundamental explicar que o termo violência obstétrica, que surgiu e é utilizado somente na América Latina, não condiz com o tratamento que o especialista em obstetrícia tem como missão prestar a todas as mulheres. Quem garante é César Eduardo Fernandes, diretor científico da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), além de presidente da Associação Médica Brasileira (AMB) e professor titular de ginecologia da Faculdade de Medicina do ABC.

“Existe sim violência contra a grávida algumas vezes praticada por colegas da nossa especialidade, outras por demais profissionais de Saúde e até mesmo pelos maridos ou companheiros. Muitas dessas violências vêm à tona porque são óbvias, mas há, infelizmente, outras que não são identificadas. É importante frisar que médicos e entidades repudiam qualquer tipo de violência contra a mulher, inclusive no parto. Usar o termo ‘violência obstétrica’ é o equivalente a usar ‘violência pediátrica’ para a violência praticada contra crianças, ou violência geriátrica para aquela feita contra idosos. Ou seja, é absurdo”, afirma em sua fala no webinar “O parto e suas consequências: uma releitura da violência obstétrica”, realizado pela Associação Paulista de Medicina (APM). 

Entende-se, portanto, como violência no momento do parto qualquer atitude, manobra, ou procedimento que possa trazer constrangimento, desconforto ou agravos à saúde da grávida. Além disso, pode ser cometido por qualquer um envolvido nessa relação, que vai do poder público à recepção do hospital, incluindo nesse caminho o próprio médico.

Esclarecidos os termos, o próximo passo para evitar a violência é que a mulher entenda as intervenções às quais pode ser submetida e os motivos pelos quais elas podem ser necessárias. Citamos aqui algumas das mais comuns e suas recomendações. Conheça:

 

No parto normal
  • Estimulação do trabalho de parto com ocitocina: trata-se de uma substância que ajuda nas contrações para que o parto seja normal e ocorra uma dilatação correta que não leve a parturiente para outra via, como a cesárea. É recomendada, por exemplo, quando há falha de progresso no primeiro estágio do parto ou, ainda, após ruptura das membranas. Quando há o uso de ocitocina, é recomendado oferecer analgesia peridural, se disponível, e assegurar que os acréscimos na dose não sejam mais frequentes do que a cada 30 minutos.
  • Episiotomia: é o corte que o médico faz no períneo para alargar o canal de parto. Recomenda-se seu uso em 10% a 15% dos nascimentos, por exemplo, em casos de hidrocefalia, quando o médico identifica que a cabeça do feto é muito grande por qualquer outro motivo, ou ainda quando pode haver laceração, causando prejuízos tanto à mulher quanto ao bebê. Quando a episiotomia é realizada, deve ser feita da forma correta pelo médico e com uso de anestesia.
  • Alívio da dor: a equipe deve recomendar em primeiro lugar o alívio não farmacológico, incluindo sempre que possível imersão em água, massagens, técnicas de relaxamento, acupuntura, uso de música, hipnose, áudio-analgesia e aromaterapia. As opções farmacológicas, como peridural, opióides e óxido nitroso, entre outras medicações, devem ser oferecidas em segundo lugar e aplicadas apenas com autorização da mulher.
  • Manobra ativa no terceiro período: o terceiro período é o momento desde o nascimento da criança até a expulsão da placenta e das membranas. A manobra ativa é, em geral, recomendada para evitar hemorragia, mas deve seguir alguns cuidados como não fazer uso rotineiro de substâncias que induzem as contrações uterinas, cortar o cordão umbilical somente após parar a pulsação e manter a expulsão da placenta, preferencialmente, por esforço materno.

 

No parto a fórceps ou vácuo extrator

Conhecido como parto instrumental, é indicado quando não há segurança em relação ao bem-estar fetal ou para as gestantes que ultrapassam o período expulsivo, que dura, em geral, de 30 a 60 minutos. Um período maior de expulsão do bebê pode levar à fadiga materna e, também, ao comprometimento da oxigenação fetal. Seu uso deve ser informado à mulher, bem como os riscos caso não se siga essa via.

 

Na cesárea

Só existem duas indicações absolutas para a cesariana. A primeira é quando há desproporção céfalo-pélvica (ou seja, a ossatura da bacia da mãe é incompatível com a da cabeça do bebê). A segunda é quando há apresentação prévia da placenta, devido à oclusão da passagem do bebê. Há ainda indicações relativas, que dependem da avaliação do médico, por exemplo: sofrimento fetal quando a mulher não tem dilatação completa, descolamento prematuro de placenta, placenta prévia com sangramento intenso, distocia (complicações que atrapalham ou impedem a passagem do bebê), herpes vaginal ativa (por conta do risco de desenvolver cegueira no bebê) e mãe portadora de HIV.

 

Um plano de parto para chamar de seu

Uma das formas de garantir que o nascimento saia como a mulher sonhou é fazer um plano de parto, que consiste em uma lista sobre os possíveis acontecimentos e como ela prefere lidar com eles.

Segundo o especialista da Febrasgo, essa lista pode conter tudo o que a mulher desejar, desde as primeiras contrações até os primeiros dias pós-parto. Pode ser feita em forma de carta ao médico e à instituição, ou simplesmente como uma reflexão sobre o que ela aprendeu e deseja para seu parto, uma organização de ideias que facilita o diálogo com os profissionais que acompanharão o nascimento. “Ela pode colocar ali as suas preferências, prefiro não ter episiotomia ou usar ocitocina, por exemplo, mas não deve ser nunca uma lista de mandamentos para os profissionais, que impede que o médico obstetra e a equipe exerçam seus papéis”, alerta o doutor Fernandes.

É direito da mulher, ainda, ser bem tratada durante todas as etapas da assistência, da chegada à saída da organização de Saúde, por todos os funcionários que com ela tiverem contato. Dessa forma, o nascimento se torna um momento para ser lembrado por toda a vida, e não um motivo de sofrimento para a mãe, a criança e toda a família.

 

Fontes:

Febrasgo se posiciona: releitura da violência obstétrica

Contra a violência obstétrica

Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal

Só há duas indicações absolutas de cesárea, diz médico da Federação de Obstetrícia

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