Por Letícia Martins, jornalista com foco em saúde
Doença tem cura, mas ainda representa risco quando não identificada e tratada a tempo.
A sífilis continua sendo um desafio importante para a saúde pública no Brasil, especialmente quando atinge gestantes. Segundo o último Boletim Epidemiológico da Sífilis, divulgado em outubro de 2025 pelo Ministério da Saúde, somente em 2024 o Brasil registrou cerca de 257 mil casos de sífilis adquirida, além de aproximadamente 90 mil casos em gestantes e 24 mil casos de sífilis congênita, quando a infecção é transmitida da mãe para o bebê.
Desde 2022, houve uma redução no número de casos de sífilis congênita, com 2.677 registros a menos nos últimos três anos, o que representa um avanço importante. Ainda assim, os dados mostram que o cenário segue exigindo atenção, diagnóstico precoce e atitude, pois, apesar de ser uma infecção curável, com diagnóstico acessível e tratamento de baixo custo, a sífilis ainda causa consequências graves na gestação quando não é identificada e tratada a tempo.
Uma infecção silenciosa e muito perigosa
A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível (IST) causada pela bactéria Treponema pallidum e pode ser transmitida de três formas:
- Por relações sexuais sem o uso de camisinha, seja o preservativo externo ou interno;
- Na gestação: a infecção pode passar da mãe para o bebê por meio da placenta;
- No momento do parto, por meio da contaminação pelo canal do parto.
Essas últimas duas formas caracterizam-se na chamada transmissão vertical.
Por isso, o diagnóstico e o tratamento adequados durante o pré-natal são fundamentais para interromper essa cadeia de transmissão e proteger a saúde do recém-nascido.
É importante destacar que a sífilis pode se manifestar em diferentes estágios (primário, secundário, latente e terciário) e nem sempre apresenta sintomas evidentes. “O diagnóstico é simples, feito por exame de sangue, e o tratamento é barato e eficaz. Quando vemos números tão altos, isso mostra que existe uma falha muito básica na assistência”, alerta o ginecologista Dr. Régis Kreitchmann, presidente da Comissão Nacional Especializada (CNE) em Doenças Infectocontagiosas da Febrasgo.
Segundo ele, o grande problema é que muitas mulheres convivem com a infecção sem saber. “A sífilis pode não deixar marcas visíveis. Os sintomas podem surgir e desaparecer, mas a doença continua no organismo e pode evoluir se não for tratada.”
Durante a gestação, essa infecção silenciosa pode ter consequências graves, como aborto, parto prematuro, natimortalidade e manifestações congênitas precoces ou tardias no recém-nascido.
O pré-natal como principal aliado
O Dr. Régis explica que o momento ideal para identificar a sífilis é antes mesmo da gravidez, na avaliação pré-gestacional. “Esse é um período estratégico para investigar ISTs, como HIV e sífilis, e iniciar o tratamento adequado antes da gestação”, orienta.
No entanto, quando essa avaliação não acontece, o pré-natal se torna a principal oportunidade de cuidado. “O protocolo da Febrasgo recomenda a testagem para sífilis já na primeira consulta do pré-natal. O problema é que muitas gestantes acabam recebendo o diagnóstico apenas no parto ou até depois dele”, afirma o médico.
Tratamento existe e precisa ser feito corretamente
A sífilis na gestação tem tratamento eficaz com penicilina benzatina, medicamento seguro para a mãe e para o bebê. O esquema varia conforme o estágio da infecção e deve ser iniciado, preferencialmente, até 30 dias antes do parto.
Apesar disso, os dados mostram falhas importantes na prática. Em 2024, quase um terço das gestantes com sífilis transmitiu a infecção para o bebê. “Por isso, o tratamento correto e oportuno da sífilis na gestante é essencial para evitar complicações graves no recém-nascido”, destaca a ginecologista Dra. Maria Luiza Bezerra Menezes, membro daCNE em Doenças Infectocontagiosas.
Ela também demonstra preocupação em relação ao cenário atual de casos de sífilis no país: “É assustador perceber como a doença continua avançando. Isso envolve desde o desconhecimento da população sobre a gravidade da sífilis – uma infecção que pode levar à morte – até a baixa qualidade do pré-natal e a banalização do uso do preservativo”, alerta.
Testar e tratar o parceiro também é fundamental
Outro ponto crítico no controle da sífilis é o tratamento do parceiro sexual. “Não adianta tratar apenas a gestante se o parceiro permanece infectado. Isso mantém o ciclo de transmissão e expõe outras pessoas ao risco”, explica o Dr. Régis.
Segundo ele, o tratamento do parceiro deve levar em conta o estágio da infecção, já que a quantidade de doses da penicilina varia conforme o tempo de evolução da doença. “Interromper esse ciclo é fundamental para proteger a mulher, o bebê e a saúde coletiva”, reforça.
Testar mais de uma vez também faz parte do cuidado
Dra. Maria Luiza lembra que a atenção à sífilis não deve se limitar à primeira consulta do pré-natal. “Mesmo que o resultado inicial seja negativo, é essencial repetir o exame entre o segundo e o terceiro trimestre”, orienta. Isso permite identificar infecções adquiridas durante a gestação e iniciar o tratamento em tempo oportuno.
Ela reforça que a testagem pode ser feita por sorologia ou teste rápido e já faz parte dos exames de rotina da gestante. “O grande foco deve ser sempre o diagnóstico precoce”, resume.
Informação, prevenção e cuidado compartilhado
A sífilis não tem vacina, mas tem prevenção. O uso consistente do preservativo em todas as relações sexuais, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado da gestante e de suas parcerias sexuais são medidas essenciais para interromper a cadeia de transmissão.
Conhecer a doença, entender seus riscos e aproveitar o pré-natal como espaço de cuidado são passos fundamentais para proteger a saúde da mulher e garantir um início de vida mais seguro para o bebê.
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