Inserido pela própria mulher, o método pode trazer praticidade à rotina, mas ainda enfrenta barreiras de acesso, custo e desconhecimento no Brasil
Por Letícia Martins, jornalista com foco em saúde
Evitar uma gravidez sem precisar tomar um comprimido diariamente é uma possibilidade oferecida pelo anel vaginal. Com eficácia semelhante à da pílula, o método libera hormônios de forma contínua e é colocado na vagina pela própria mulher. Apesar dessa praticidade, ainda é pouco conhecido e utilizado no Brasil.
Segundo a ginecologista Dra. Cristina Aparecida Falbo Guazzelli, integrante da Comissão Nacional Especializada em Anticoncepção da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), diferentes fatores ajudam a explicar esse cenário. Entre eles estão o custo, a ausência de oferta gratuita pelo SUS e os receios relacionados ao contato com o próprio corpo.
“Mesmo sendo um método seguro e eficaz, o anel vaginal ainda é pouco conhecido e pouco utilizado no Brasil”, afirma a ginecologista.
Conhecer o funcionamento, as vantagens e as limitações do anel vaginal pode ajudar a mulher a avaliar, junto ao ginecologista, se ele é adequado às suas necessidades.
Como funciona o anel vaginal?
O anel é um dispositivo flexível que libera hormônios absorvidos pelo organismo através da vagina. Embora seja colocado nessa região, sua ação contraceptiva não se limita ao local: os hormônios chegam à circulação sanguínea.
No esquema mensal habitual, o dispositivo permanece na vagina por três semanas, seguidas de uma semana de pausa. Depois, um novo anel é inserido, conforme a orientação profissional e a bula do produto. A proteção depende de respeitar os períodos de uso e de troca.
Assim, o método dispensa a tomada diária de comprimidos, mas exige atenção ao calendário. “A principal vantagem está na forma de liberação hormonal: o anel libera pequenas quantidades de hormônio de forma contínua e constante, ajudando a manter níveis hormonais mais estáveis”, explica Dra. Cristina.
Segundo a médica, algumas mulheres também podem perceber menos enjoo, dor de cabeça ou mal-estar. Isso, porém, não significa ausência de efeitos indesejados: a resposta ao método varia de pessoa para pessoa.
Quem pode se beneficiar?
O primeiro passo é avaliar se a mulher pode utilizar um contraceptivo hormonal que contenha estrogênio. O anel não é indicado para todas, e a escolha precisa considerar o histórico de saúde.
Entre aquelas que podem usá-lo, a praticidade costuma ser uma vantagem para quem esquece a pílula com frequência ou prefere um método discreto, que não fica visível e não exige uma ação diária.
Ele também pode ser uma alternativa para mulheres com condições que dificultem a absorção de medicamentos pelo aparelho digestivo, inclusive após determinados tipos de cirurgia bariátrica. Como os hormônios são absorvidos pela via vaginal, o método não depende da absorção pelo estômago ou pelo intestino.
Outra possibilidade apontada pela especialista é o uso por mulheres que apresentam sangramentos fora do período esperado durante o uso de pílulas. A liberação hormonal contínua pode favorecer o controle do ciclo em algumas pacientes.
O anel incomoda ou interfere na relação sexual?
O receio de sentir o dispositivo o tempo todo é uma das dúvidas que podem afastar possíveis usuárias. Quando bem colocado, porém, ele tende a se acomodar na parte interna da vagina e não causar incômodo.
“Quando bem colocado, o anel costuma ser confortável, seguro e não interferir na rotina nem na vida sexual da maioria das mulheres”, afirma a ginecologista.
Isso não significa que a experiência será igual para todas. A percepção do anel pela mulher ou pelo parceiro pode variar, e desconfortos merecem ser discutidos com a profissional de saúde.
Outro medo é o de que o dispositivo se perca dentro do corpo. O anel não passa livremente da vagina para o restante do organismo. Ainda assim, ele pode sair acidentalmente. Nessas situações, é necessário seguir as instruções específicas do produto, pois o tempo fora da vagina pode comprometer a proteção contraceptiva.
Por que ainda é pouco utilizado?
Além das dúvidas, o acesso pesa na decisão. O anel não é oferecido gratuitamente pelo SUS, conforme destaca a especialista, e a compra recorrente pode representar uma despesa importante no orçamento. Os preços variam conforme o produto e a farmácia.
Há também uma barreira cultural. A inserção exige que a mulher toque o próprio corpo, algo que ainda pode provocar insegurança ou constrangimento.
Na avaliação de Dra. Cristina, a maior familiaridade de parte das mulheres jovens com o coletor menstrual pode favorecer a aceitação do anel. O contato com o corpo, acompanhado de informação clara, pode tornar o uso menos cercado de receios.
Novas opções, novos cuidados
Entre as novidades estão anéis com características de armazenamento que dispensam refrigeração e modelos reutilizáveis por vários ciclos.
É o caso do Annovera, aprovado pela agência reguladora dos Estados Unidos, a FDA. Um mesmo dispositivo pode ser utilizado por 13 ciclos, aproximadamente um ano, respeitando o esquema de três semanas de uso e uma semana de retirada em cada ciclo. Portanto, “uso anual” não significa permanecer um ano inteiro na vagina.
Também existem pesquisas sobre anéis que combinam diferentes medicações. Essas novidades, contudo, precisam ser diferenciadas das opções disponíveis no Brasil.
Para a Febrasgo, a orientação profissional é parte essencial da escolha contraceptiva. Explicar o funcionamento, acolher dúvidas e considerar a saúde, as preferências e a rotina da mulher ajuda a identificar quando o anel pode ser uma opção prática e confortável.
Esta matéria contou com informações do site da Febrasgo.
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