Por Letícia Martins, jornalista com foco em saúde
Depois da infância, a vacinação costuma sair do radar. Entenda por que ela continua essencial para a saúde, a autonomia e a qualidade de vida da mulher.
Durante a infância, a vacinação costuma ser tratada como prioridade, enquanto na vida adulta a vacinação quase desaparece da rotina. O tema raramente surge nas consultas; muitas mulheres não sabem quais vacinas precisam tomar e acabam acreditando que imunização termina quando a adolescência chega. O resultado é perigoso: mulheres adultas e idosas menos protegidas do que poderiam estar.
Esse cenário não acontece por falta de vacinas, mas por falta de informação e orientação. “Muitas vacinas que hoje fazem parte do calendário infantil simplesmente não existiam no passado. Isso significa que mesmo mulheres que foram corretamente vacinadas quando crianças podem ter esquemas incompletos”, explica a ginecologista Dra. Susana Cristina Aidé Viviani Fialho, presidente da Comissão Nacional Especializada (CNE) em Vacinas da Febrasgo.
Além disso, existem vacinas indicadas especificamente para a fase adulta e para o envelhecimento, justamente quando o risco de complicações aumenta. Ainda assim, elas seguem pouco lembradas tanto pelas pacientes quanto, muitas vezes, pelos próprios serviços de saúde.
Segundo a Dra. Susana, o maior desafio está entre mulheres de 20 a 59 anos. Nessa fase, é comum a sensação de que “está tudo bem”, de que certas doenças não fazem mais parte da realidade. “Isso reduz a percepção de risco e faz com que muitas mulheres adiem ou simplesmente ignorem a vacinação”, observa.
Um exemplo claro é a vacina contra o herpes-zóster, indicada a partir dos 50 anos. “Apesar de ser bastante divulgada, muitas mulheres comentam sobre ela, mas não chegam a se vacinar. O arrependimento costuma vir depois, quando enfrentam dores intensas e crônicas ou outras complicações que poderiam ter sido evitadas”, relata a Dra. Susana.
Ela cita a vacina contra o HPV como exemplo. “Durante muito tempo, a informação de que ela só poderia ser usada até os 26 anos foi tão repetida que, até hoje, muitas mulheres não sabem que a vacina HPV nonavalente é segura e eficaz até os 45 anos”, explica.
No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece gratuitamente a vacina contra o HPV para meninas e meninos de 9 a 14 anos e para alguns grupos específicos. Já na rede privada, ela está disponível para mulheres e homens até os 45 anos. “Mesmo mulheres que já tiveram contato com o vírus podem se beneficiar da vacinação, com redução do risco de novas lesões”, reforça a especialista.
E quando a preocupação é o bolso?
Em algum momento, essa conversa quase sempre chega ao mesmo ponto: o custo. Muitas vacinas indicadas para mulheres adultas ainda estão disponíveis apenas na rede privada e algumas exigem planejamento financeiro. Por exemplo, o esquema completo da vacina HPV9 pode chegar a cerca de R$ 3 mil. Já a vacina contra o herpes-zóster custa, em média, entre R$ 800 e R$ 900 por dose, e são necessárias duas aplicações.
Não é pouco dinheiro. E ninguém ignora essa realidade. “A gente sabe que nem todas as mulheres conseguem arcar com esse investimento”, reconhece a Dra. Susana. “Mas antes de falar de preço, é importante entender o impacto que a vacinação pode ter na sua vida.”
Isso porque muitas dessas vacinas não existem apenas para evitar doenças graves ou fatais, mas para preservar qualidade de vida. “Na mulher idosa, infecções como gripe, VSR ou Covid-19 podem levar a internações, deixar sequelas e até causar morte. Já o herpes-zóster dificilmente mata, mas pode provocar dores intensas e prolongadas, que comprometem a rotina por muito tempo”, explica. “Na mulher adulta, o foco é evitar sofrimento e complicações.”
Para facilitar o entendimento, a médica usa uma comparação direta: “Vacina funciona como seguro. A gente paga esperando nunca precisar usar. Mas, se a doença aparecer, estar vacinada faz toda a diferença. Foi o que vimos na pandemia: a vacina não impediu todos os casos de Covid-19, mas reduziu drasticamente a mortalidade.”
Planejar agora para viver melhor depois
Pensar em vacinação na vida adulta também é pensar em longevidade com vida saudável. Na prática, isso significa planejamento. “Não precisa fazer tudo de uma vez. É possível organizar as vacinas por prioridade, de acordo com idade, histórico de saúde e fatores de risco”, orienta a Dra. Susana. Esse cuidado dilui custos, facilita decisões e torna a vacinação mais viável.
Além disso, entender o que está disponível no SUS e o que só existe na rede privada ajuda na organização. A vacina dupla adulto (difteria e tétano), por exemplo, é oferecida gratuitamente pelo sistema público. Já a dTpa, que inclui proteção contra a coqueluche, está disponível apenas em clínicas privadas. “Quando a mulher tem essa informação, ela consegue se planejar melhor”, explica.
Pesquisar preços também vale a pena. Algumas clínicas oferecem campanhas e descontos em períodos específicos. Informação, diálogo com o médico e planejamento são aliados para transformar a vacinação em um cuidado contínuo — possível, consciente e feito para acompanhar a mulher em todas as fases da vida.
Vacinas recomendadas para mulheres
Confira, a seguir, as principais vacinas recomendadas para mulheres adultas (de 20 a 59 anos) e idosas (60+).
| DISPONÍVEIS NO SUS | |
| Vacina | Indicação |
| dT (difteria e tétano adulto) | Toda a vida adulta (reforço a cada 10 anos) |
| Hepatite B | Adultas não anteriormente vacinadas ou incompletamente vacinadas |
| Influenza (gripe) | Grupos prioritários (gestantes, idosas, comorbidades) |
| COVID-19 | Conforme atualização do PNI |
| Febre amarela | Dose única para pessoas até 59 anos nunca vacinadas ou sem comprovantes de vacinação |
| Tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) | Mulheres até 59 anos, se não vacinadas |
| Vírus sincicial respiratório (VSR) | Prevista para gestantes no SUS a partir de 2025 |
| DISPONÍVEIS APENAS NA REDE PRIVADA | |
| Vacina | Indicação |
| HPV nonavalente | Mulheres de 20 a 45 anos (três doses) |
| Herpes-zóster | A partir dos 50 anos, ou a partir dos 18 anos para pessoas com risco aumentado para a doença (imunossupressão ou doenças crônicas) |
| dTpa (tríplice bacteriana acelular) | Reforço em adultas e gestantes a partir da 20ª semana |
| Meningocócica B e ACWY | Mulheres com comorbidades ou exposição prolongada |
| Pneumocócicas VPC13 ou 15V + VPP 23 ou 20 conjugada | Idosas e grupos de risco |
| VSR | A partir de 60 anos, ou indicada para adultos entre 18 e 59 anos que apresentem alto risco de desenvolver doenças respiratórias graves. |
Fonte: Sociedade Brasileira de Imunização (SBIm). Disponível em https://sbim.org.br/calendario-de-vacinacao/adultos-21-a-59-anos

