Quem quer ter uma startup? Nós, as mulheres!

por Feito para Ela
Participação feminina na liderança de startups de base tecnológica fica estagnada em dez anos, o que demonstra que ainda há espaço para crescer; saiba como com nossas dicas

As startups não pararam de crescer no Brasil nos últimos anos. O país já conta, inclusive, com 12 unicórnios, que são as startups que têm valor de mercado acima de R$ 1 bilhão. Essas empresas oferecem soluções para os mais diversos setores do mercado. E, embora a população brasileira seja bem equilibrada quando o assunto é gênero, a participação feminina nesse mercado está estagnada há uma década.  

A conclusão é do estudo Female Founders Report 2021, realizado pelo Distrito em parceria com a Endeavor e a B2Mamy. Segundo o levantamento, há dez anos, quando o ecossistema de startups brasileiro ainda estava no seu estágio inicial de desenvolvimento, com 18% do tamanho que tem hoje, as empresas de base tecnológica fundadas apenas por mulheres representavam 4,4% deste mercado. Outras 3,5% tinham fundadores de ambos os gêneros. Aquelas fundadas exclusivamente por homens eram 92,1% em 2011. Em 2020, esses índices eram de 4,7%, 5,1%, e 90,2%. Ou seja, pouco mudou. Mas o ponto positivo dessa questão é que há muito espaço para aquelas que querem ingressar nesse mercado.  

 

Os desafios 

Para Michele Zavadil Pereira, fundadora da startup Me Veste Brasil e cofundadora da Wit Brazil, iniciativa que tem como objetivo incentivar a participação das mulheres como fundadoras de startups tecnológicas, o baixo número de líderes femininas nessas empresas ocorre principalmente por três fatores:  

  • O primeiro é cultural: a mulher ainda é vista como a principal responsável pelo cuidado com a casa e os filhos.  
  • O segundo é de formação: as mulheres, em geral, começam a empreender por necessidade e vão tocando o negócio basicamente para pagar contas. Poucas têm tempo ou foram educadas para pensar em escala, e em buscar investimentos para crescer.  
  • O terceiro é estrutural: ainda há uma certa desconfiança dos investidores – a maioria homens – porque eles acreditam que, embora as mulheres sejam muito responsáveis em relação às finanças, elas são menos arrojadas, uma qualidade fundamental para a inovação característica das startups.  

 

Nesse sentido, segundo uma publicação recente da “Harvard Business Review”, os investidores privilegiam os pitchs de homens em detrimento dos das mulheres, mesmo quando o conteúdo do argumento de venda é idêntico. E conforme o Banco Mundial, apenas 7% do total de investimentos de risco nos mercados emergentes são destinados a negócios liderados por mulheres. Além disso, a média de capital recebido por startups lideradas por elas é 65% da média recebida por eles.  

Michele lembra que, no Brasil, o cenário é ainda mais desafiador, já que somam-se às dificuldades de investimento a instabilidade econômica e a burocracia.

“No Brasil, leva-se mais de um mês para abrir uma empresa, um tempo absurdo. A possibilidade de ser MEI veio pra tentar preencher essa lacuna, mas se a mulher quer investir em um negócio para ganhar escala, a gente brinca que não dá para ser CEO de MEI. Muitas vezes a mulher empreende pequeno porque não consegue enfrentar essas dificuldades”, explica. 

Quando o assunto são as empresas de base tecnológica, como é o caso da pesquisa da Distrito, a tecnologia por si só pode se tornar uma barreira. Primeiro porque há dificuldade de encontrar bons profissionais no mercado. E segundo porque as mulheres precisam ser melhor preparadas para lidar com a tecnologia. “Isso já começou a mudar e existem diversos projetos para ajudar a mulher a desenvolver esse lado. Mas é fundamental que ela entenda da tecnologia porque hoje todas as empresas dependem dela, mesmo que não seja o core business“, detalha Michele. 

 

As possíveis soluções 

Michele fundou a Me Veste Brasil, uma plataforma de compra e venda de roupas e acessórios, quando percebeu que, embora os processos produtivos das peças sejam complexos e exijam muitos recursos, as pessoas só as utilizam, em média, sete vezes antes de se desfazer delas.  

A partir dessa percepção, ela criou primeiro um grupo de assinaturas com peças essenciais. Mas depois percebeu que o que as mulheres queriam mesmo era vender as roupas usadas que já tinham para outras pessoas. Ela passou, então, por um programa de aceleração do governo do Rio Grande do Sul, o RS Criativo, e lançou o site para esse fim no início da pandemia, um momento que considera oportuno já que, devido ao isolamento social, tudo migrou para o online.  

Como o modelo era de comissionamento, mas a responsabilidade pela venda da roupa era do site, Michele se viu com mais de 1.000 peças em seu próprio apartamento em menos de um mês. Foi aí que percebeu que precisava dar escala ao negócio. Para tanto, buscou o Founder Institute, programa de aceleração do Vale do Silício para startups, no qual desenvolveu toda a ideia do negócio e onde fez primeiros contatos com investidores. Foi ali também que recebeu o convite para integrar o hub da Universidade Feevale, onde chegou ao modelo atual de negócio: a venda da tecnologia da plataforma para que outras mulheres possam operá-la em suas regiões de origem, facilitando a logística e incentivando o empreendedorismo feminino. 

A partir da sua experiência pessoal, Michele elenca os cinco pontos fundamentais para as mulheres que querem ter um empreendimento de sucesso, que também estão no seu terceiro livro, intitulado “Empreendedorismo feminino: protagonistas em tempos de pandemia”. Conheça: 

  1. Tenha um propósito conectado com a sua essência. “Venho de uma família que tem uma história com a moda, mas passei muitos anos no mercado corporativo. Quando decidi empreender, criei a primeira empresa com a minha mãe a partir de uma ideia sustentável: utilizar os resíduos da indústria da moda para produzir novas peças. Então, a partir dessas vivências, me conectei com minha essência e encontrei o propósito para seguir nesse caminho.” 
  2. Prepare-se. “Para fundar a Me Viste Brasil, passei por dois processos de aceleração antes de ir para uma apresentação com investidores. Portanto, é preciso se preparar e buscar conhecimento para enfrentar as barreiras do mercado para as mulheres.” 
  3. Entenda o mercado. “Eu pesquisei muito a concorrência e o que já existia antes de desenvolver a ideia. É o que sempre dizem: a gente não precisa ser o primeiro, mas precisa ser o melhor.”  
  4. Planeje-se. “Para dar escala ao negócio, é fundamental ter planejamento, metas, objetivos de curto, médio e longo prazo. E, claro, nunca deixar de aprimorar os conhecimentos.” 
  5. Antecipe-se e estude o que é tendência. “A pandemia não era previsível, mas o avanço da tecnologia sim. Mesmo assim, muitas empresas foram pegas de surpresa. Para evitar isso, é sempre legal ficar de olho no que é tendência. Por exemplo, eu vi que o desejo das clientes era vender as peças, e não comprar mais, e adaptei o meu negócio para isso. É preciso estar disposto e saber a hora de mudar a rota sem deixar de lado a essência.” 

  

Fontes:  

https://forbes.com.br/forbes-tech/2021/03/ecossistema-de-inovacao-tem-apenas-51-de-startups-fundadas-por-mulheres/ 

https://materiais.distrito.me/mr/female-founders-report 

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